Roteiro

 Quando eu morrer, eu não quero ser enterrada



Cena 1 

Lugar aberto. Ext. Dia


Céu de Brasília.


Pers 1

É… bom dia.


Pers 2

Pois não.


Pers 1

Eu queria dar uma olhada nas opções.


Pers 2

Claro. (Som de abrir pasta) A gente tem

uma vasta gama de opções. Nem todas

disponíveis. O preço varia bastante. Tá

vendo aqui? É mais perto da pista.

Quanto mais centro maior o valor.


Pers 1

Entendi. E aqui?


Pers 2

Essa área aqui já tá bem escassa. Seria

pra quantos?


Pers 1

Não entendi…


Pers 2

A gente tem de um a três lugares.


Pers 1

Ah,,, tem pra quatro?


Pers 2

Só até três.


Pers 1

Mas… é que somos quatro…


Pers 2

Hummm… É… Infelizmente 

não temos essa opção.


Breve silêncio. Ouvimos apenas o som ambiente 


Pers 1

Tá… Pra três aqui, então.


Pers 2

Essa região já tá toda tomada…


Escutamos todo o diálogo em off com a imagem do céu de Brasília e as nuvens passando.


FADE OUT


Cena 2

Imagens de arquivo


Imagens de catástrofes. Prédio implodindo. Tsunami. Pessoas correndo.


TELA PRETA


Cartela: A passagem do tempo é medida pela desordem.


Cena 3

Estúdio. Int. Dia


Duas mulheres, sentadas no chão, manuseiam pequenos arranjos de flores em cima de uma baixa mesa azul. Elas vestem roupas brancas e tranquilamente realizam pequenas "cirurgias" nas flores. Trilha sonora. Detalhes dos arranjos sendo manuseados.


Pers 2 (V.O)

Na verdade, essa história começa aqui.

No que acontece depois que uma pessoa

que você ama morre. 



Detalhe da  mão de uma das mulheres, cortando a cabeça de um cacto e costurando no galho de uma violeta.


Pers 2 (V.O)

Você tá bem? Perguntar se você tá

bem não era a intenção. Como você tá? 


Pers 1 (V.O.)

A sensação é de que eu fui privada de uma

certa inocência. Eu tinha acesso ao privilégio de

uma vida despreocupada até o final da graduação.

Não à toa a carta da morte no baralho é o ceifador.

Uma parte da minha vida foi cortada a foice. 


Silêncio

Pers 1 (V.O.)

Cansei.


TELA PRETA


Pers 1 (V.O.)

Tem uma coisa sobre a qual a gente não fala,

que é quando a gente sabe que uma pessoa

que a gente ama vai morrer e o que a gente

faz com essa informação.



Cena 4

Imagens de arquivo


Inserções e imagens de cogumelos, vermes, o ouriço etc, criando uma imagética da finitude, da decadência, da decomposição.


Cena 5

Estúdio. Int. Dia


Mesmo ambiente da cena 3, porém as mulheres não estão mais em cena, tão pouco os arranjos. Restam apenas a mesa azul coberta de terra, restos de flores, e o material que usavam (tesouro, agulhas, alfinetes, linha etc).


Pers 1 (V.O.)

Quando eu morrer eu não quero

ser enterrada. Nada contra quem quer.

Mas a proposta brascubiana de ir pra debaixo

da terra bater uma bola com o verme de rói o

meu cadáver, não me atrai. Eu tenho medo de

ser enterrada vida e acho um desperdício de terra.

Eu quero ser cremada, que daí não tem mais volta.

Na verdade, eu acho que a idéia de virar uma árvore é

bem poética. É uma coisa que o planeta precisa

e me dá a sensação de que estou cumprindo o

ciclo da vida. Devolvendo pra terra o que eu tomei. 


FADE OUT


Créditos finais.

Imagens dos arranjos modificados enquanto sobem os créditos finais.



FIM


Comentários